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na rua dos meus sentidos

na rua dos meus sentidos

09
Mai14

Quando uma ida ao lixo é um murro no estômago

naruadosmeussentidos

Sempre me fez confusão ver pessoas ao lixo, literalmente. Sempre me questionei de como seria a vida dessas pessoas para as obrigar a isso. Cheguei-me até a perguntar se realmente eram obrigados a isso, já que muitos o fazem já quase por rotina e outras quase por vício. Uns procuram ferro, outros coisas coisas boas que não servem para outras mas para eles sim e outros apenas sobrevivência, que é como quem diz restos dos pratos dos outros que são muitas vezes o seu único prato do dia.

 

O facto de ultimamente ter uma rotina permite-me dar-me conta das rotinas dos outros, mesmo quando os outros são as pessoas que vasculham os caixotes de lixo. Reconheço o rapaz novo que vai de bicicleta sempre ao final de tarde, reconheço o que usa luvas já gastas no final da manhã, reconheço o senhor de barba com porte de gente com berço mas vergado pelo vida no romper do dia. E reconheço em todos uma dignidade que talvez menos facilmente reconhecesse em mim em situação idêntica, mostram-se, chegam-se perto, abrem os caixotes e vasculham, sem se preocuparem com os olhares dos outros.

 

Hoje, como sempre fui pôr o lixo no caixote, e levantei como sempre a tampa por trás e atirei o saco como faço tantas e tantas vezes só pela preguiça de ir dar a volta.

 

Mas desta vez a tampa não se fechou sozinha. Do caixote, vejo uma cabeça que se mostrou e se escondeu logo de seguida tapando-se com a mesma tampa que eu inconvenientemente abri. Pedi desculpa, não me assustei. Retenho sim o olhar azul assustado numa cara com pele gasta pelo sol, assustado e envergonhado de bicho do mato levado àquilo, aquilo, de andar ao lixo, já que caçar já não pode, e pedi desculpa, uma, duas vezes e afastei-me com vergonha por viver num mundo destes, em que pessoas como eu se vêem obrigadas a isso.

 

E pensei isto é cena de filme, é, só pode ser mas não, isto é cena de uma sociedade que não vê o outro, que empurra para situações desta gente como eu, de carne e osso.

 

Isto não foi uma cena de filme, mas queria tanto tanto que fosse.

2 comentários

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    João 10.05.2014

    Os culpados somos todos nós, que nada fazemos. A sociedade como um todo.
    Temos que ser nós a resolver os nossos problemas e parar de acreditar ingenuamente que um dia haverá uma entidade celestial chamada governo que surgirá para os resolver por nós.
    Que governos fazem merda, todos sabemos. Mas neste contexto o governo não passa de um bode expiatório a que recorremos para não carregarmos o fardo de nos sentirmos responsáveis pelo nosso próprio falhanço, individual ou como sociedade.
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