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na rua dos meus sentidos

na rua dos meus sentidos

14
Set14

Eu não me canso de ser humana

naruadosmeussentidos

Sei o que é cansaço do trabalho, sei o que é sentir-se cansada porque se trabalha demais e se ganha pouco, sei o que é isso mas também sei que nunca o cansaço me tornou desumana.

 

Ontem dei comigo sozinha num hospital com o meu pai, o meu bem mais precioso, e por isso mesmo, o bem do qual tenho mais medo de perder. Ontem em pleno corredor chorei pela incapacidade que tive de o proteger, pelo medo que tive de o perder, e pelo raiva e tristeza que tenho por todos nós que vivemos à mercê de um país que não sabe respeitar os seus velhos, sejam eles o meu pai ou o pai de alguém.

 

Ontem o meu pai deu entrada num hospital público, porque nos recusámos sempre em fazer seguro de saúde, porque achámos, ele sempre, eu nem sempre, que se pagamos impostos, se cumprimos as nossas obrigações alguém tem de cumprir connosco, há deveres e direitos, ou havia sei lá...o que sei é que ontem em pleno corredor, jurei a mim mesma que quando de lá saísse o meu pai iria ter um seguro de saúde e nunca mas nunca mais passaríamos por isto.

E isto, foi o sentir que ninguém queria saber, que se pode morrer sem socorro num local de socorro. Foi entrar às 17h e sair às 3 da manhã. Foi ver velhotes em macas a delirar sem ninguém responsável se abeirar deles, sem lhes perguntar se queriam algo, sem os ver comer durante horas.

Foi ver o meu pai a desfalecer, e ter de quase implorar que fosse visto. Porque a triagem não é de todo uma triagem. Porque não se compreende que se vá primeiro a um guichet, se vá depois para uma sala de espera, se seja depois então chamado para uma triagem, onde sequer nos olham na cara, é o questionar e por isso ser castigada, e não nos darem o autocolante de acompanhante por pura represália. É desesperar e chorar compulsivamente e ser segura e ajudada por seguranças que apesar de tudo se mostram mais humanos e vão facilitando a vida a quem se preocupa porque se fica com a sensação que ninguém se preocupa.

 

É ir para uma sala de espera e ver 3 médicos que em 3h atenderam 3 pessoas se muito cada um, é passar-me dos carretos porque se vê um médico ser mal educado com alguém que tem idade para ser meu avô e que perante tantas dores fez o mesmo que toda a gente faz, pede auxilio quando nem sequer  o devia ter feito, pois é suposto estarmos num sitio em que nos providenciam o mesmo. Pedir por algo que é nosso por direito é revoltante.

E perante respostas como estou aqui desde às 8h da manhã, o que é que uma pessoa responde, responde que o que importa não são as horas, mas sim o que se faz durante as mesmas, o que me interessa a mim que um médico esteja nas urgências das 8h às 20h se durante as mesmas não produziu. Porque revolta termos de lembrar a alguém que não está ali a fazer-nos um favor mas sim a trabalhar para quem lhes paga o ordenado e que merece ser respeitado. É triste termos de o fazer, como é triste ver os nossos velhos em maca a gemer horas a fio e ver médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar e vê-los passar e nem sequer se abeirarem deles para ver se precisam de algo, é triste vê-los ali das 17h às 3 da manhã sem comerem e sem ninguém se preocupar com isso. É triste termos de levantar a voz mesmo que tenhamo razão. É triste ver 3 médicos saírem do seu turno e deixarem uma fila de espera interminável para o colega que veio a seguir, um apenas, que foi incansável, que trabalhará as mesmas horas que os outros mas que produziu efectivamente mais, que cumpriu efectivamente mais, que se preocupou efectivamente mais, e que foi sem dúvida alguma mais humano que todos outros supostos profissionais de saúde que por ali andaram aquelas horas todas, foi vê-lo a ir buscar os doentes, os equipamentos, o que fosse preciso, foi vê-.lo a trabalhar e isto só se torna extraordinário, quando apenas devia ser normal, porque os outros foram efectivamente maus. O cansaço, a falta de meios não justifica a falta de humanidade, digo eu...

 

PS: e sim, a questão é de se se é bom ou mau profissional, e isso tanto há no público e no privado, certo, a questão é que no privado, alguém olha para as coisas e os maus não tem lugar cativo, ou não têm sequer hipótese se serem maus porque há quem os controle, os chame à responsabilidade.

 

PS1: de ressalvar a diferença abismal de todos os profissionais de saúde com quem contactámos nas análises clínicas, na sala de RX e até na cafetaria do pessoal já que o bar do hospital estava fechado. A todos o meu bem haja.

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